sábado, 8 de agosto de 2015

A ingestão excessiva de proteína engorda? - Post no facebook



Como algumas pessoas não têm acesso ao meu facebook pessoal deixo este comentário partilhado no mesmo. Espero que vos seja útil...





A ingestão excessiva de proteína engorda?
Hoje já recebi 3 perguntas sobre isto e como tal vou deixar a minha opinião, enquanto licenciado em bioquímica e ciências da nutrição, ok?


Aqui vai um "toque" de Bioquímica...

Apenas um aminoácido pode ser convertido directamente e exclusivamente em triacilgliceróis (triglicéridos) via acetil-CoA, a leucina . A leucina pode ser convertida directamente em acetil-CoA ou em acetoacetato (a forma desprotonada do ácido acetoacético), na realidade um corpo cetónico. No entanto esta é apenas metade da história já que a leucina também pode ser utilizada na conversão glutamato/glutamina pela transaminação do seu grupo NH3.


Metabolismo do aminoácido leucina: e a sua conversão em HMB, colesterol, acetil-CoA e acetoacetato


A lisina (o outro aminoácido exclusivamente cetogénico) por sua vez é primordialmente convertida no fígado em acetoacetato e 2 moléculas de dióxido de carbono. É esta a razão pela qual o conceituado Prof. Stuart Phillips dizia que apenas um aminoácido pode ser convertido directamente em gordura. E ele está certo, essa via directa e exclusiva pela acetil-CoA é unica à leucina. É claro que existem mais aminoácidos que podem ser convertidos em acetil-CoA mas eles não são exclusivamente cetogénicos, são também glucogénicos. O que eu quero dizer com isto é que dos 20 aminoácidos (eventualmente 21 já que a selenocisteína também possui codão específico) contemplados pelo código genético apenas dois serão metabolizados obrigatoriamente ou em corpos cetónicos ou eventualmente em triacilgliceróis via acetil-CoA.


Metabolismo da lisina: conversão em acetoacetato


É claro que podem sempre ser desaminados e excretados (ciclo da ureia), convertidos em alfa-cetoácidos, usados como fonte de energia (ciclo glucose-alanina) etc.


Ciclo da ureia



Então bioquimicamente eu diria que sendo as proteínas conjuntos de aminoácidos a sua conversão em triacilgliceróis após hidrólise da proteína é pouco provável. É sempre possível que o excesso de aminoácidos possa sobrecarregar vias glucogénicas e entrar em vias lipogénicas. É possível mas daí a acontecer... 

Há uns tempos atrás eu expliquei que qualquer licenciado em bioquímica tinha uma visão do metabolismo estilo "maquina de pinball", onde tudo acontece ao mesmo tempo e por vezes de várias formas. Geralmente quem não conhece a Bioquímica tem uma visão de "jogo de setas" onde tudo acontece do ponto A ao ponto B em linha recta. É perigoso pensar bioquimicamente assim.



Estudos

Independentemente do que as vias bioquímicas possam dizer o que dizem os estudos? Penso que isto será mais válido, certo?Um dos estudos mais interessantes foi feito por Bray et al. onde se mostrou que o excesso de peso no grupo com a dieta alta em proteína se deveu a massa magra e não gordura. "protein affected energy expenditure and storage of lean body mass, but not body fat storage." 

O mesmo grupo viria a publicar este ano um estudo interessante em que mostra que o aumento da RMR (resting metabolic rate) se deve à proteína e não à gordura. "Excess energy as protein acutely stimulates 24EE and SleepEE."

Antonio et al. fizeram um estudo ainda mais interessante: 1,8 g/kg/dia vs 4,4 g/kg/dia de proteína com o excesso de energia daí resultante. O grupo da alta dose de proteína consumiu mais 800 kcal/dia e mesmo assim não aumentou a massa gorda:"Consuming 5.5 times the recommended daily allowance of protein has no effect on body composition in resistance-trained individuals who otherwise maintain the same training regimen. This is the first interventional study to demonstrate that consuming a hypercaloric high protein diet does not result in an increase in body fat". 
4,4 g/kg/dia de proteína é uma brutalidade, levou a um excesso de 800 kcal/dia e mesmo assim, nada de massa gorda! 

Quando olhamos para outros estudos com dietas isocalóricas que compararam a ingestão por exemplo de doces vs amendoins, o grupo dos doces mesmo ingerindo a mesma energia foi o único que aumentou o perímetro da cintura de forma estatisticamente significativa e daqui tirem as conclusões que quiserem smile emoticon

Se chegaram até aqui e leram tudo o que escrevi... Parabéns! Passaram no teste de tolerância ao Filipe...


Uma outra questão que já me foi levantada (a um nível bioquímico mais avançado) é a questão da ASP (acylation stimulating protein) já que esta actua de forma parácrina no aumento da eficiência da síntese de triacilgliceróis nos adipócitos. No entanto esta revisão aponta para os lípidos (quilomicrons) como principais reguladores desta proteína. Alguns autores levantam a hipótese da frutose e da glucose também poderem influenciar a ASP no entanto será necessária mais evidência que suporte esta hipótese.

Este testamento não tem como objectivo incentivar o consumo de uma dieta alta em proteína, apenas que se perceba que quando dizemos que tudo em excesso engorda, temos de definir este "tudo" muito bem. A principal preocupação e provavelmente a única que tenho em relação às dietas hiperproteicas não tem a ver com a massa gorda, com a função renal (excepto nos casos em que já existe insuficiência ou patologia renal) ou com a massa óssea, tem a ver sim com a desidratação. A excreção do azoto (N) no ciclo da ureia "custa" água e um atleta muito desidratado dificilmente tem um bom desempenho.

Resumindo toda esta conversa em uma frase: É possível que a proteína seja convertida em gordura mas pouco provável que isso venha a acontecer.



Cumprimentos,

Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda


As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento

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