domingo, 8 de novembro de 2015

Suplementos de óleo de peixe – esterificação com etanol é inferior à forma de triglicérido?


Depois de ter verificado nas redes sociais um enorme frenesim sobre um vídeo que por lá circulava mostrando um suplemento de óleo de peixe que dissolvia um copo de plástico (copo de poliestireno cristal), decidi fazer uma pequena abordagem ao assunto 





Nota: Os suplementos de óleo de peixe serão abordados com algum detalhe nas Proviant Research Notes. Estejam atentos, já que muito em breve esse documento irá estar disponível de forma gratuita online


Quais as diferenças entre um suplemento de óleo de peixe em forma de éster etílico e um suplemento de óleo de peixe sob a forma triglicérido (triacilglicerol)?


A forma de triglicérido é composta por 3 ácidos gordos que se ligam a uma molécula de glicerol. Esta é a forma natural em que se encontram os ácidos gordos no peixe e o teor de EPA (ácido eicosapentaenóico) e DHA (ácido docosahexaenóico) varia dependendo do peixe, no entanto raramente se encontra acima de 30 %. Tanto a forma de triglicérido (TG) como a forma de éster etílico (EE) tendem a ser submetidas a processos de purificação adicionais.

Uma vez que o EPA e DHA são os princípios activos do óleo de peixe (a conversão de ácido α-linolénico/ómega 3 em EPA e DHA em humanos é relativamente baixa) a indústria tentou aumentar a sua concentração a partir de um processo de etilação. Neste processo, explicando de forma simplista, o EPA e o DHA é retirado da molécula de glicerol (quimicamente um álcool) e ligado a uma molécula de etanol (EtOH). Este é o processo pelo qual se produz o óleo de peixe sob a forma de éster etílico.

Uma outra alternativa é após a criação da forma em éster etílico (mais concentrada em EPA/DHA) quebrar esta ligação e re-esterificar estes ácidos gordos numa molécula de glicerol convertendo-os de novo à forma original de triglicérido. Aqui a etilação só teria utilidade com o objecivo de aumentar a concentração de EPA e DHA. Assim regra geral existem suplementos de óleo de peixe em forma de triglicérido natural (geralmente na casa de 30 % de EPA/DHA), em forma de triglicérido por re-esterificação com maior concentração de EPA/DHA (geralmente acima de 30 %) e em forma de éster etílico pela ligação do grupo carboxilo do ácido gordo (tipicamente sob a forma carboxilato) ao grupo hidroxilo (OH) do EtOH.

Tanto sob a forma de triglicérido como sob a forma de éster etílico ambos são esterificados, simplesmente num caso o mesmo é esterificado com glicerol e noutro com etanol. Certo?   


Qual das formas é mais estável?

Aparentemente ambas têm a mesma estabilidade. Após a extracção do óleo qualquer produtor de qualidade e responsável, sela de imediato o mesmo em recipientes, sendo estes submetidos a uma “lavagem” em azoto, evitando a sua exposição à radiação solar e oxigénio. Após o enchimento das cápsulas gelatinosas com este óleo, ambas as formas são estáveis desde que devidamente armazenadas e embaladas.


A forma de éster etílico funciona?

Sim, a grande maioria dos estudos usa a forma esterificada em etanol. as recomendações neste âmbito não distinguem a forma em TG da forma em EE (1).

 

Qual das formas é melhor absorvida?

Os vários estudos mostram resultados contraditórios em relação às diferentes apresentações. Alguns não mostram diferenças na absorção (2–4) enquanto outros sugerem que a absorção é mais baixa (5–8). É plausível que a diferença entre as marcas de suplementos (diferentes métodos de extracção do óleo de peixe), diferenças existentes entre indivíduos e tipo de estudo concebido, levem também às discrepâncias reportadas. De uma forma geral os estudos que mostram menor absorção da forma EE foram de curta duração (em torno de 10 h) e administraram os suplementos em uma única dose. Alguns estudos mostram que a absorção em forma de EE é mais lenta o que pode explicar este resultados.

Estudos efectuados em períodos superiores a 2 semanas tendem a não encontrar diferenças significativas entre a forma EE e TG. Em relação ao trabalho de Dyerberg et al. que parece mostrar melhor absorção sob a forma de TG deverá ser notado que o mesmo apenas teve a duração de 2 semanas usando uma dose de 3,5 g/dia (8). Os trabalhos com óleo de peixe em EE só mostram efeitos por exemplo na redução da hipertrigliceridémia após 1 mês de suplementação, apresentando máximos benefícios ao fim de 3 meses (9). Qualquer estudo feito a curto prazo com EE está destinado a o insucesso pelas diferenças inerentes à absorção, metabolismo e biodisponibilidade.

O óleo de peixe é geralmente suplementado a longo prazo. Se o objectivo for suplementar a curto prazo provavelmente a forma em TG será mais interessante. Uma das muitas explicações avançadas para a elevação mais lenta a nível plasmático e tecidular da forma EE, parece ligada à hidrólise mais lenta destes ésteres quando comparados com a hidrólise pela lipase pancreática na forma de TG (10). Enquanto a forma em TG é hidrolisada pela lipase pancreática, a forma em EE é hidrolisada pelas células endoteliais junto ao epitélio intestinal.

Ao contrário do que estão a pensar, provavelmente esta absorção mais lenta sob a forma em EE até poderá ser interessante. No que toca às arritmias fatais, tem sido sugerido efeito benéfico destes ácidos gordos no bloqueio dos canais de sódio, cálcio e possivelmente de potássio nos miócitos (11,12). A libertação mais lenta destes ácidos gordos poderá em teoria garantir uma melhor concentração sérica, levando a eventuais benefícios no controlo electrofisiológico do coração (13).


A forma EE oxida com maior facilidade?

Bom, esta foi uma das afirmações no famoso vídeo do copo que me fez pesquisar um pouco. Esta questão prende-se com o facto do óleo de peixe em EE poder não ser convertido em TG nas células endoteliais. A pouca evidência neste âmbito parece suportar a total conversão da forma EE em TG no endotélio (3). Alguns estudos também mostram incorporação destes ácidos gordos tanto a nivel dos triglicéridos como fosfolípidos plasmáticos ao fim de uma semana (14).

Altas doses de EPA e DHA (4 g/dia) na forma EE também não parecem levar a alterações significativas a nível oxidativo no plasma, mesmo em doses desta natureza (15). Estudos de longa duração também parecem confirmar a segurança da forma EE (9,16–18). Podia também dizer que o único omega-3 considerado farmacêutico e sujeito a receita médica encontra-se na forma EE... Antes que surjam “teorias da conspiração” não vou entrar por aí…


O vídeo assustador do copo de poliestireno que se desfaz na presença de óleo de peixe em éster etílico e se mantém intacto na presença da forma em TG…? O que dizer?


Bem… nem sei por onde começar… Fica implícito nesse video que o óleo de peixe em EE vai desfazer o nosso sistema digestivo. Primeiro não existe etanol livre nos suplementos de óleo de peixe em forma EE (a não ser que algo tenho corrido muito mal), segundo não me lembro de células, sejam elas epiteliais ou não, constituídas por poliestireno (PS) cristal. Há uma regra em química, igual dissolve igual. Na natureza abundam compostos com carga e sem carga, designados de polares e apolares. Compostos polares como água e EtOH não dissolvem compostos apolares como o PS.

Qualquer pessoa que “lave” um tubo de ensaio num laboratório e tenha noções básicas de química usa corriqueiramente EtOH, H2O desionizada, acetona ou hexano dependendo da polaridade do composto que se pretende dissolver. É um conceito básico que qualquer químico aprende (para dissolver lípidos, hexano regra geral funciona bem). O facto da forma EE dissolver o poliestireno apenas reflecte uma polaridade muito próxima entre os 2 compostos. Será que isto diz algo em relação à segurança do suplemento? Não, excepto se tiverem um sistema digestivo de esferovite (é PS expandido). A toxicidade deste tipo de suplementos nunca foi posta em causa, tanto quanto sei por qualquer entidade reguladora.

Podemos sempre dizer que nenhum estudo mostra superioridade da forma EE em relação à forma em TG mas daí a começarmos com alarmismos pela dissolução de um copo de plástico vai uma grande distância. Quando compram um suplemento de óleo de peixe com 50 % de EPA/DHA ou mais, mesmo que diga em triglicérido não se trata de um óleo de peixe natural. É apenas um suplemento que foi convertido em éster etílico e depois re-esterificado em TG.
Por isso o rótulo menciona “presente na sua forma natural” e não “óleo de peixe natural”. Perante vídeos desta natureza que pretendem impressionar e não informar usem sempre o vosso conhecimento de ciências básicas para apreciar o que vos é dito.

É difícil utilizar a razão para argumentar com pessoas que se colocam em posições irracionais. Resumindo, se não vão suplementar a curto prazo não me parece que seja o fim do mundo usar a forma EE. Estão dispostos a consumir apenas a forma natural de óleo de peixe? Tudo bem, fiquem por suplementos com apenas 30 % de EPA/DHA. Acham que um suplemento com 85 % de EPA/DHA é natural porque está em triglicérido? Só se for de um super-peixe… talvez alguma espécie desconhecida que usa copos de poliestireno e vê vídeos na internet. A outra hipótese é o etanol já estar a fazer efeito mas  aí provavelmente não vem do vosso suplemento de óleo de peixe...




Cumprimentos,

Filipe Teixeira
Director Of Nutrition-Tudor Bompa Institute International
The Tudor Bompa Institute, Portugal
Direcção Técnica-Body Temple, Lda



As opiniões aqui contidas apenas reflectem a opinião do autor e não necessáriamente da empresa Body Temple Lda/Tudor Bompa Institute. Consulte sempre o seu médico ou profissional de saúde antes de enveredar por qualquer suplemento, plano alimentar ou tratamento



Bibliografia:
1.    Lee JH, O’Keefe JH, Lavie CJ, Marchioli R, Harris WS. Omega-3 fatty acids for cardioprotection. Mayo Clin Proc. 2008 Mar;83(3):324–32.

2.  Nordøy A, Barstad L, Connor WE, Hatcher L. Absorption of the n-3 eicosapentaenoic and docosahexaenoic acids as ethyl esters and triglycerides by humans. Am J Clin Nutr. 1991 May;53(5):1185–90.

3.   Krokan HE, Bjerve KS, Mørk E. The enteral bioavailability of eicosapentaenoic acid and docosahexaenoic acid is as good from ethyl esters as from glyceryl esters in spite of lower hydrolytic rates by pancreatic lipase in vitro. Biochim Biophys Acta. 1993 May 20;1168(1):59–67.

4.   Hansen JB, Olsen JO, Wilsgård L, Lyngmo V, Svensson B. Comparative effects of prolonged intake of highly purified fish oils as ethyl ester or triglyceride on lipids, haemostasis and platelet function in normolipaemic men. Eur J Clin Nutr. 1993 Jul;47(7):497–507.

5.           el Boustani S, Colette C, Monnier L, Descomps B, Crastes de Paulet A, Mendy F. Enteral absorption in man of eicosapentaenoic acid in different chemical forms. Lipids. 1987 Oct;22(10):711–4.

6.  Lawson LD, Hughes BG. Human absorption of fish oil fatty acids as triacylglycerols, free acids, or ethyl esters. Biochem Biophys Res Commun. 1988 Apr 15;152(1):328–35.

7.     Neubronner J, Schuchardt JP, Kressel G, Merkel M, von Schacky C, Hahn A. Enhanced increase of omega-3 index in response to long-term n-3 fatty acid supplementation from triacylglycerides versus ethyl esters. Eur J Clin Nutr. 2011 Mar;65(2):247–54.

8.     Dyerberg J, Madsen P, Møller JM, Aardestrup I, Schmidt EB. Bioavailability of marine n-3 fatty acid formulations. Prostaglandins Leukot Essent Fatty Acids. Elsevier; 2010 Sep;83(3):137–41.

9.    Sadovsky R, Kris-Etherton P. Prescription omega-3-acid ethyl esters for the treatment of very high triglycerides. Postgrad Med. 2009 Jul;121(4):145–53.

10.  Ackman RG. The absorption of fish oils and concentrates. Lipids. 1992 Nov;27(11):858–62.

11.   Leaf A, Kang JX, Xiao Y-F, Billman GE. Clinical prevention of sudden cardiac death by n-3 polyunsaturated fatty acids and mechanism of prevention of arrhythmias by n-3 fish oils. Circulation. 2003 Jun 3;107(21):2646–52.

12.  Lavie CJ, Milani R V, Mehra MR, Ventura HO. Omega-3 polyunsaturated fatty acids and cardiovascular diseases. J Am Coll Cardiol. 2009 Aug 11;54(7):585–94.

13.   Rupp H. Omacor (prescription omega-3-acid ethyl esters 90): From severe rhythm disorders to hypertriglyceridemia. Adv Ther. 2009 Jul;26(7):675–90.

14.  Zuijdgeest-van Leeuwen SD, Dagnelie PC, Rietveld T, van den Berg JW, Wilson JH. Incorporation and washout of orally administered n-3 fatty acid ethyl esters in different plasma lipid fractions. Br J Nutr. 1999 Dec;82(6):481–8.

15.   Hansen JB, Berge RK, Nordøy A, Bønaa KH. Lipid peroxidation of isolated chylomicrons and oxidative status in plasma after intake of highly purified eicosapentaenoic or docosahexaenoic acids. Lipids. 1998 Nov;33(11):1123–9.

16.   Harris WS, Ginsberg HN, Arunakul N, Shachter NS, Windsor SL, Adams M, et al. Safety and efficacy of Omacor in severe hypertriglyceridemia. J Cardiovasc Risk. Jan;4(5-6):385–91.

17.   Bays HE, Tighe AP, Sadovsky R, Davidson MH. Prescription omega-3 fatty acids and their lipid effects: physiologic mechanisms of action and clinical implications. Expert Rev Cardiovasc Ther. 2008 Mar;6(3):391–409.

18.  Bays H. Rationale for prescription omega-3-acid ethyl ester therapy for hypertriglyceridemia: a primer for clinicians. Drugs Today (Barc). 2008 Mar;44(3):205–46.



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